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Aviação Portuguesa - Blogue

A todos os mecânicos de avião do mundo... Ao meu curso: Novembro de 1953

Aviação Portuguesa - Blogue

A todos os mecânicos de avião do mundo... Ao meu curso: Novembro de 1953

Coisas da Maruja

COISAS DA MARUJA

Os oficiais da Aviação Naval, em especial os pilotos, que afinal, vistos a mais de 60 anos não eram assim tão malvados como nós dizíamos deles nos meados dos anos cinquenta. tinham, no entanto, as suas coisas:

Nem queriam ouvir falar de sargentos e praças da Aeronática Militar a pilotar os aviões da Aviação Naval… e todavia, o Ti Miguel, um homem porreiríssimo e extraordinário, um praça, Primeiro Marinheiro, um posto militar hierárquico inferior a cabo, era o piloto, “comandante”, do “Tamanco”, uma barcaça a cair aos bocados que, com qualquer tempo e hora, atravessava todos os dias o Mar da Palha com trezentos homens a bordo.

Bons profissionais fazem milagres com deficientes ferramentas… incapazes nem com os melhores recursos fazem alguma coisa de jeito.

Aniceto Carvalho

Preito ao Capelão Pires de Campos

VALE MAIS EXPERIMENTA-LO…

Quando o capelão, Pires de Campos chegou à Base Aérea 6 em 1955, era um rapazote de pouco mais de vinte anos, dois ou três mais velho do que a maior parte dos cabíssimos como eu, quase todos do meu curso.

Além de parecer ainda mais jovem do que era, o capelão era também um tipo extremamente simpático, um camarada, um amigo que, não demorou muito a ultrapassar a especificidade das funções porque ali estava.

Embora para os acéfalos da época, e posteriores, Portugal fosse então a terra dos três “F”, Fado, Fátima e Futebol, em instalações desportivas e religiosas, a Base Aérea 6, uma unidade moderna acabada de estrear, tinha um pequeno recinto de basquetebol em terra batida e nada mais.

Habilidade contudo, é fazer a obra sem a melhor ferramenta. Foi o que fez o capelão Pires de Campos: “Negociou” com o clube de especialistas e instalou lá a Casa do Senhor, criou um grupo coral, um outro de seguidores da conferência de São Vicente de Paulo, dava aulas de inglês, no treze de Maio a seguir tinha com ele a “igreja da Base Aérea 6” numa peregrinação ao Santuário de Fátima... Fora disso, as reuniões informais à porta do refeitório ou das camaratas nos fins de tarde de Verão, entre o jantar e a cama, onde se falava de tudo menos de religião, eram intermináveis.

Mais por influência da minha avó paterna eu era de formação católica.

Tinha feito a primeira e segunda comunhão, embora tivesse andado dez anos afastado, seguir o Capelão Pires de Campos era para mim uma boa maneira de aproveitar o tempo com o qual não perdia nada.

E não perdi mesmo.

Continua: - Preito ao capelão Pires de Campos

Aniceto Carvalho

Atlético Sport Aviação, (ASA)

ATLÉTICO SPORT AVIAÇÃO, (ASA).

Lembrou-me agora e antes que me esqueça:

Havia uma “tradição” no fim dos cursos de mecânicos de avião, em Sintra, pelo menos até ao meu, em Novembro de 1953, que já vinha da Fundação da Nacionalidade. Não sei se depois continuou.

Era fatal como o destino:

Assim que o curso terminava aparecia um sargento a inscrever os aprovados como sócios do Atlético Sport Aviação, (ASA) com o pagamento da primeira quota, claro, e o sargento Bicho a vender rifas da mota.

Que eu saiba o Atlético Sport Aviação (ASA) não existia, nem nunca existiu, a mota do sargento Bicho nunca saiu a ninguém.

Não confundam: Era para a petisqueira… nada mais.

Deixe-se aqui dito para quem nunca tenha passado por isto, ou parecido, ou que tenha os ouvidos atafulhados de baboseiras, que a distância formal entre um sargento mecâncico de avião e um aluno da especialidade no fim do curso era praticamente inexistente ou milimétrica.  

Aniceto Carvalho   

O Cuequinhas

O Cuequinhas

A minha vida decorria calma e feliz nos princípios de 1959, na Base Aérea 6, quando um camarada de outra camarata me presenteou com uma caixa de sapatos, no fundo da qual buliam umas coisinhas pequeninas e pretas.

Eram bichos-da-seda, explicou ele.

- Bichos-da-seda? - protestei. - Um bicho-da-seda é uma lagarta do tamanho de um dedo...  Isto são cagadelas de um bicho qualquer... Só que mexem.

- Tudo o que nasce, nasce pequenino – filosofou o meu interlocutor.

O meu frágil coração vacilou. Dali à amoreira, na Casa Branca, eram dois quilómetros; quatro com o regresso. E que importância tinha isso?...

Trouxe duas folhinhas, das mais tenras. Devia chegar aí para uma semana. Aquelas criaturas nem comeriam. Era só um descargo de consciência.

Na manhã seguinte deitaria aquilo fora. Guardei a caixa no armário.

Fiquei banzado. Aqueles seres microscópicos, que, “se calhar nem comiam”, nem as nervuras das folhas tinham deixado.

“É o que faz a fome...”, pensei eu. “Com dose reforçada, deve passar”. Mas não passou. Umas semanas depois eram três caixas, logo a seguir, todo o espaço que restava no armário tinha desaparecido.

Tive de tomar medidas.

A esquadra mudou de instalações. Fomos estrear um anexo no outro extremo do hangar, uma secção ampla, bem arejada, decorada a rigor com tudo o que de melhor nos deixaram surripiar das secções vizinhas.

Na antiga secção ficaram os consumíveis, o material de manutenção.

Exposto o drama ao Bragança, ele concluiu que “não tinha jeito nenhum deixar morrer à fome os bichinhos”... “Desde que sejas tu a dar-lhes de comer, também não faz diferença um caixote a mais na secção”.

Eu tinha feito mal os cálculos: Tinha-me escapado que os “bichinhos” aumentavam aí umas mil vezes de tamanho, que o que me parecera ser uma centena de minúsculas pontas de alfinete ondulantes, eram, afinal, milhares de máquinas trituradoras, para as quais, um saco de folhas de amoreira por dia nem sequer passava duma dieta frugal.

A “obrigação” estava a ultrapassar os meus limites, tomei uma iniciativa:

- O melhor era meter a bicharada numa caixa mais pequena e pendurá-la num galho da amoreira... pelo menos,  lá,  podiam empanturrar-se à vontade. 

O Vilela que nunca ligara importância nenhuma, nem com um olhar de esguelha, pôs-se ao alto. Por certo, porque não queria perder o hilariante espectáculo de me ver  todas as manhãs de saca às costas, sentenciou:

- Não senhor!... Isso é uma barbaridade... Os infelizes vão sucumbir todos à intempérie...  os que sobreviverem, serão comidos pelos pássaros.

Todos concordaram. Queriam ver a “fábrica da seda” em laboração.

O sargento Rosa considerou uma almoçarada com o produto final.

A Primavera veio em meu auxílio na forma de três novelos de penugem negra que encontrei nos pequenos pinheiros mansos próximo da Casa Branca. Criar melros a partir duma semana antes de saírem do ninho era o que eu melhor sabia fazer: Bastava apontar-lhe ao bico um naco de pão embebido em água e deixar-lho cair na goela escancarada.

Para que não me complicassem a vida pacata a procurá-los nos inúmeros esconderijos da secção, instalei-os numa gaiola feita dum caixote, mostrei-lhes a abundância que fervilhava.

Não me pareceram muito estimulados. Bichos-da-seda, pelos vistos, não era dieta que apreciassem. Os meus anos de vida militar, todavia, falaram mais alto: Eu também comia o que me davam… As iguarias tinham de ficar para melhores tempos.

Nestas coisas da natureza, porém, seja qual for a espécie, nem todos têm o mesmo arcaboiço: Um deles, o “caga no ninho”, foi-se abaixo em poucos dias; o segundo, ainda resistiu uma temporada… por fim, desistiu de viver; o mais resistente dos três tinha “estômago” de militar… aguentava tudo.

Quando os trituradores de folhas de amoreira decidiram a amodorrar, já o meu precioso auxiliar esvoaçava por todo o lado quando eu tomava as devidas precauções. Estava na altura de o recompensar dos sacrifícios passados: Melhorei-lhe o “palacete”, comprei-lhe umas caixas de ração apropriada, levei-o para as novas instalações.

Chamámos-lhe “Cuequinhas”: em “honra” de um castiço cabo especialista que, já em plena época do “slip” – que era muito mais aconchegadinho e dava outro sainete – ainda desfilava na camarata com umas velhas cuecas da tropa de pano cru que lhe chegavam a meio das canelas escanzeladas.

O “Cuequinhas” passou a ser a mascote.

Disseram-me a seguir que devia meter os casulos em água a ferver antes das borboletas saírem. Assim fiz. Levei contudo, tão à risca as instruções que uns dias mais tarde até nos distantes gabinetes do comando havia borboletas atracadas umas às outras.

- Pelo menos tiveram um fim de vida feliz – observou o Vilela.

Como era de esperar, toda a gente concordou. O sargento Rosa teve de adiar a perspectiva da almoçarada para melhor ocasião.

A uma distracção na secção, o “Cuequinhas” fugiu em meados de 60. Entrou na primeira janela que encontrou aberta: na oficina de pintura. O António pintor tomou conta dele com todo o desvelo. Morreu de velhice, ao que parece feliz, próximo dos finais de 64, um pouco antes do meu regresso da primeira comissão de serviço no Ultramar.

Aniceto Ferreira de Carvalho

Espelhos do tempo

ESPELHOS DO TEMPO

Com ajudas de custo sempre pagas tarde e a más horas, em 1958, que mal davam para as despesas, andava eu há oito dias lá pela Beira Alta, com namorada no Montijo, numa meia tarde de Sexta-Feira.

Nos preparativos de regresso ao Sul, não me surpreendeu que uma comitiva de altas patentes se aproximasse para visitar – julgava eu - a então ainda nova máquina voadora em acção. “Tudo bem” – pensei.

Tude bem, claro, não fosse o caso da madame do manda-chuva militar local, já com idade para saber que com coisas sérias não se brinca, fazer parte da comitiva para dar uma voltinha de helicóptero.

(Com coisas sérias não se brinca… nem com o trabalho dos outros).

 “Mau Maria!” – ruminei – “Que mal que isto me calha!”. 

Perante a proibição de transportar civis num helicóptero militar, para mais mulheres, e face ao aparatoso desfile de patentes, o jovem sargento piloto vacilava num dilema, não sabia o que havia de fazer.

Ocorreu-me de repente, dirigi-me à cauda do helicóptero. Precisava de dar uma vista de olhos mais apurada na inspecção antes do voo… Tal como eu desconfiava: A colagem das pás do rotor de cauda estava a dar de si:

Dei o helicóptero por inoperativo. E pronto.

Qual é o piloto que se arrisca a levantar voo com um aparelho dado como inoperativo pelo mecânico? O resto não tem história.

Se ainda não o sabia, fiquei a saber: Na aviação, sem o olho do mecânicos de avião por perto, não há voltinhas de avião para ninguém. 

Aniceto Carvalho

Uma época nas entrelinhas

UMA ÉPOCA NAS ENTRELINHAS

Nos primeiros meses de 1954, a fazer 19 anos e uma simples Quarta Classe, eu tinha acabado o curso de mecânico de avião, estava nos primeiros passos da profissão, era primeiro cabo da Força Aérea Portuguesa.

Só para dar uma pequena ideia do que isso era,  na unidade ou fora dela, em todo o lado, a passear na Avenida dos Pescadores, no Montijo, em Lisboa, nos Restauradores, na Feira Popular ou no átrio do cinema São Jorge, eu vestia a farda militar mais bonita e conseguida do mundo, precisamente igual à do  comandante ou do general da minha arma.  

A partir daí, se fosse dedicado e cumpridor quanto baste, não precisava de lamber as botas a ninguém para três anos depois estar a caminho de uma carreira profissional já com alguma responsabilidade.

E foi o que aconteceu. Compreendi que confiarem no meu trabalho era tudo o que eu tinha, que estar perto quando precisassem de mim era muito mais importante do que parecia, e que, se calhar, com esses dois trunfos na mão, até podia afrouxar um bocadinho que não fazia mal nenhum.

Mas com naturalidade… Com ela fisgada não resulta.

E foi assim em toda a minha vida profissional: No meu trabalho ninguém metia o nariz sem eu querer, nem sempre gostei de burocratas, mas quando era preciso nunca falhava, nem me escondia a disfarçar.

Tinha sempre montes de coisas minhas para fazer, precisava de aproveitar as horas mornas de serviço… Era discreto nos meus biscatos e ninguém me dizia nada. Toda a gente sabia que se fosse preciso eu estaria lá às cinco horas da madrugada ou dois ou três dias seguidos sem ir à cama.

E assim se passaram mais de trinta anos de relacionamento normal positivo com quem mandava e obedecia, com posições bem claras, quando era o caso, quer como empregado,  quer como patrão anos mais tarde. 

Apenas  duas palavras finais: Vivi uma vida profissional fantástica que me proporcionou  um viver equilibrado, fiz o que quis, sempre me foi mais fácil entrar do que sair em qualquer dos patrões por onde passei.

E isto diz tudo de um passado ainda não muito distante.

Não de mim, que pouco interessa… mas de como eram as coisas quando se era responsável aos quinze anos, e se aprendia no berço que viver a vida era bem mais que polir esquinas e viver à custa dos outros.

Aniceto Carvalho

Helicóptero Bell-47

Este helicóptero, o Bell-47, é maravilhoso em todos os aspectos.

No Gabinete do Plano do Zambeze, em Tete, nós levávamo-lo para casa à tarde e fazíamos-lhe a manutenção ao serão em volta da lareira.

Não era bem assim, mas a máquina era bem ineteressante.
Aniceto Carvalho

Curiosidades de helicópteros

CURIOSIDADES DE HELICÓPTEROS

Uma das coisas que muita gente não sabe, nunca soube ou já esqueceu na aerodinâmica de um helicóptero é que as pás de um dos lados do aparelho têm quase o dobro da velocidade de translação das do outro.

E isso tem muito que se lhe diga... 

Aniceto Carvalho

Pessoas muito importantes

PESSOAS MUITO IMPORTANTES

A aviação é um ramo de actividade em que toda a gente é muito importante: Pilotos, controladores, secretárias, assistentes, tractoristas, bagageiros, etc. e tal por aí fora… o único gajo que não interessa a ninguém na aviação é o que arranja os aviões para que todos os outros lá estejam.

Aniceto Carvalho

NOTA SOBRE O TEXTO

Estava a ver um filme que abordava uma profissão do ramo aeronáutico que, sei lá porquê, parece gostar muito de cólinho.

Saiu isto: Este texto  foi escrito por um mecânico de avião, eu próprio, o tal “único  gajo que não interessa a ninguém na aviação”.

Está explicado, acho eu.

Aniceto Carvalho