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Aviação Portuguesa - Blogue

A todos os mecânicos de avião do mundo... Ao meu curso: Novembro de 1953

Aviação Portuguesa - Blogue

A todos os mecânicos de avião do mundo... Ao meu curso: Novembro de 1953

Afinal era francês

Afinal era francês

Quando eu  era um aplicado aluno de inglês do Capelão Pires de Campos, e até já alinhavava umas frases; o meu camarada de curso, o Garcês, que na mesma altura militava temporariamente na secretaria da Esquadra Mista, no Hangar Marítimo, andava a fazer o Primeiro Ciclo.

A fase de ter algumas regalias para estudar eram mais tarde… no primeiro ciclo, quem o queria fazer tinha de aproveitar todos os minutos.

O Garcês tinha uns minutos de folga, estava a rever qualquer coisa à pressa, teve de largar os estudos, deixou o livro aberto em cima do balcão.

Entrou a maralha do costume, entre eles, um furriel oriundo da antiga Aviação Naval, um bom tipo de quem nada de mal havia a dizer, contudo de um QI por certo abaixo de zero, a milímetros da boçalidade.

Era meu condiscípulo nas aulas de inglês do capelão Pires de Campos. 

Entrou, debruçou-se no livro aberto sobre o balcão, fez seguir o indicador ao longo da página, atirou a frase mais retumbante de todos os tempos nas margens do Mar da Palha: “Não percebo” - exclamou. “Sei umas palavras de inglês das aulas do capelão, não tiro daqui uma neste livro”.

O Garcês embatucou, um sargento, ao lado, esticou o pescoço:

- Pois não – disse ele. – É que esse livro é de francês.

Vinha a propósito de, clic: Um artigo de Helena Matos

Embora com alguma dificuldade em lhe compreender a linguagem, nunca deixei de falar com ele quando nos encontrávamos. Há cerca de vinte anos, em serena cavaqueira ao serão ali no jardim municipal cá do sítio, o nosso ilustre "francófono" saiu-se-me com esta: "Para mim existe o (partido X)... se existe mais algum, eu não sei nem quero saber".

Achei piada. De facto, se lhe dessem a importância que certas pessoas e coisas merecem, ninguém fazia a menor ideia que elas existiam. 

Aniceto Carvalho

Como funciona um turbojato

Acreditem ou não, com cerca de dez anos de idade eu sabia que era o hélice que fazia o avião voar. Meados da década de 40 do Século XX, finais da Segunda Guerra, interior da Beira Litoral.

Não me perguntem como. Não sei se de algum texto da 4ª. Classe, se das revistas da propaganda lá em casa do tempo da guerra.

Do que eu me lembro, e bem, de facto, foi de tentar fazer voar um avião com hélice e de não ter conseguido.

Estava em Vila Nova de Gaia, em 1952, a dois meses de ingressar na FAP, com aviões a bailar na cabeça, observei para o meu patrão:

- Como é que um motor de jacto faz voar um avião se não tem hélice?

O meu patrão não fazia a menor ideia, tentou uma explicação parola, não disse nada de aproveitável, ficámos assim.

Aprendi no ano seguinte. Mas ficou um rabinho: É que ao contrário do que muita gente acredita não é o impacto dos gases do escape na atmosfera à saída do motor que faz o avião deslocar-se em sentido contrário… o que faz um motor (avião), deslocar-se num sentido, é a diferença de pressões entre a parte da frente e a parte de trás dentro da câmara de combustão.

Outra das que correm mundo há bastantes anos diz que os Irmãos Wright inventaram o avião. Não é bem assim: Os Irmãos Wright "inventaram" um motor com suficiente potencia para movimentar um hélice capaz de fazer um avião levantar do chão. Mesmo assim com a propriedade do plano inclinado… porque para descolar na vertical foram precisos mais 50 anos de progresso até encontrar um motor cuja relação peso/potência o permitisse.

Aniceto Carvalho

Curiosidades Aeronáuticas

Clic e veja:

A seguir este micro-turbojacto feito por mim em 1960

Aqui visto em corte lateral.

microjet4.gif

Trata-se basicamente de um "Tubo de Venturi", tecnicamente adaptado para ser um micro-turbojacto e não simplesmente um ram-jacto.

(Um ram-jacto não tem peças móveis internas)
Nunca chegou a funcionar. Estávamos a caminho da Guerra da Ultramar, o meu casamento para breve, os helicópteros estavam na calha, eu estava praticamente mobilizado para Angola... os interesses tinham mudado de direcção, as dificuldades finais da obra tinham ficado intransponíveis, a motivação para continuar, se não estava a zero, andava lá perto.

Ficou assim. Pelo menos livrei-me daquilo me explodir na cara.

Aniceto Carvalho

Helicópteros - auto-rotação

Helicópteros - Auto-rotação

Auto-rotação é uma aterragem com o motor parado, normalmente muito comum no treino de pilotos de helicópteros da Força Aérea  

No meu tempo na Força Aérea havia pilotos de helicóptero, Nazaré e Rego de Sousa que, por norma, aterravam em auto-rotação.

Não tem perigo. Até porque, em treino, a auto-rotação é feita com o motor a trabalhar. (Importante é saber como se faz nas situações bicudas).

Embora não se veja bem, segundo a legenda, aqui é um desses casos.

Mais tarde noutras paragens, com outro pessoal, embora gente do melhor, mas que não tinham  sido pilotos de helicóptero na Força Aérea, fiquei com algumas dúvidas do treino que tinham em auto-rotação.

Não sei, nunca fiz auto-rotação no JetRanger. No entanto, eu tinha tanta confiança neste aparelho, em Deus, sei lá mais em quem, que levei dois anos um pouco desconfiado que alguns pilotos não sabiam fazer a auto-rotação em JetRanger e não me dava por dentro nem por fora.

Treino de auto-rotação em Bell JetRanger 206 A

O piloto que se vê no vídeo deve ser um instrutor. Em helicóptero o lugar do piloto é à direita. A propósito: Para quem entenda um bocadinho destas coisas, neste vídeo está bem exemplificado porquê.

(A seguir as auto-rotações do José Nazaré dos Santos Silva)

As auto-rotações do Nazaré

Eu conhecia o Nazaré há doze anos, desde quando ele tinha chegado à Base Aérea 6, em 1958, pouco depois da chegada dos primeiros Alouette II.

Foi colocado nos helicópteros. E assim, ele como o mais maçarico dos pilotos e eu dos mecânicos da “esquadra”, passámos a andar os dois por todo o lado, cada vez que um helicóptero era chamado a transportar o figurão a Lamego ou a dar ao rabinho em Sagres para mostrar as habilidades.

Com alguns bons bocados pelo meio, (quando eu tive de dançar com as duas miúdas, (irmãs), porque o Nazaré não sabia dançar, num baile particular para nós os quatro em São Romão; outros bem mais complicados quando o Alouette se incendiou no Aeródromo Base 1, na Portela, à minha frente com ele lá dentro sem que eu pudesse fazer alguma coisa), estivemos em Luanda, na Esquadra 94, andámos por lá, seguimos as nossas vidas.

O Nazaré tinha passado uma fase complicada com helicópteros. Nunca tinha sido grande adepto da asa rotativa, o acidente do AB1, embora sem ter deixado mazelas físicas, deixou-o sem vontade de voltar a voar naquilo.

A Guerra do Ultramar resolveu a questão.

Ficou por cá, acho que instrutor, co-piloto aqui e ali, acabou nomeado para um curso de Alouette III em França. O “trauma” do piloto português não passou despercebido ao instrutor francês… quando o Nazaré começou a voar na Esquadra 94, em Luanda, era um dos melhores pilotos portugueses de helicópteros, senão o melhor sem qualquer favor.

Só não o seria, porque não o queria ser, nem isso lhe interessava.

Conheci-o bem.

Voltamos a encontrar-nos na Base Aérea 3, em Tancos, na primeira metade de 1970. Éramos os dois “helicopteristas” com mais tarimba na unidade, e se calhar em toda a Força Aérea, conhecíamo-nos os dois de olhos fechados, a confiança profissional um no outro era ilimitada.

Ele como tenente, eu como sargento.

Sabe-se lá porquê, começámos a fazer todos os voos de experiência. Em geral, sozinhos. Por nada. Descolávamos, fazíamos os testes recomendados, íamos ver as miúdas. Uma hora e tal depois regressávamos lá pelas alturas à vertical da unidade. O Nazaré desligava o motor, vinha aterrar com toda a serenidade em frente do hangar sem que ninguém desse por isso.

Aniceto Carvalho