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Aviação Portuguesa - Blogue

A todos os mecânicos de avião do mundo... Ao meu curso: Novembro de 1953

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A todos os mecânicos de avião do mundo... Ao meu curso: Novembro de 1953

Uma época nas entrelinhas

UMA ÉPOCA NAS ENTRELINHAS

Nos primeiros meses de 1954, a fazer 19 anos e uma simples Quarta Classe, eu tinha acabado o curso de mecânico de avião, estava nos primeiros passos da profissão, era primeiro cabo da Força Aérea Portuguesa.

Só para dar uma pequena ideia do que isso era,  na unidade ou fora dela, em todo o lado, a passear na Avenida dos Pescadores, no Montijo, em Lisboa, nos Restauradores, na Feira Popular ou no átrio do cinema São Jorge, eu vestia a farda militar mais bonita e conseguida do mundo, precisamente igual à do  comandante ou do general da minha arma.  

A partir daí, se fosse dedicado e cumpridor quanto baste, não precisava de lamber as botas a ninguém para três anos depois estar a caminho de uma carreira profissional já com alguma responsabilidade.

E foi o que aconteceu. Compreendi que confiarem no meu trabalho era tudo o que eu tinha, que estar perto quando precisassem de mim era muito mais importante do que parecia, e que, se calhar, com esses dois trunfos na mão, até podia afrouxar um bocadinho que não fazia mal nenhum.

Mas com naturalidade… Com ela fisgada não resulta.

E foi assim em toda a minha vida profissional: No meu trabalho ninguém metia o nariz sem eu querer, nem sempre gostei de burocratas, mas quando era preciso nunca falhava, nem me escondia a disfarçar.

Tinha sempre montes de coisas minhas para fazer, precisava de aproveitar as horas mornas de serviço… Era discreto nos meus biscatos e ninguém me dizia nada. Toda a gente sabia que se fosse preciso eu estaria lá às cinco horas da madrugada ou dois ou três dias seguidos sem ir à cama.

E assim se passaram mais de trinta anos de relacionamento normal positivo com quem mandava e obedecia, com posições bem claras, quando era o caso, quer como empregado,  quer como patrão anos mais tarde. 

Apenas  duas palavras finais: Vivi uma vida profissional fantástica que me proporcionou  um viver equilibrado, fiz o que quis, sempre me foi mais fácil entrar do que sair em qualquer dos patrões por onde passei.

E isto diz tudo de um passado ainda não muito distante.

Não de mim, que pouco interessa… mas de como eram as coisas quando se era responsável aos quinze anos, e se aprendia no berço que viver a vida era bem mais que polir esquinas e viver à custa dos outros.

Aniceto Carvalho